Tantas coisas para contar
Quando tinha cinco anos,éramos seis.Os meus pais,eu e três irmãos.
O Inácio com seis anos,eu tinha cinco,o meu irmão Almiro com três anos e o António com pouco mais de um ano.
O meu pai sempre foi uma pessoa instável,trabalhava como moleiro e tinha o gosto pela vida nómada.
Pouco parava num emprego e mostrou-se sempre um homem revoltado e que não gostava de ser contrariado.
Tornava-se agressivo com os que mais amava e tratava mal a todos.
As pessoas repudiavam-no por isso incitando com essas atitudes,uma maior revolta na personalidade conturbada dele.
Com a vida complicada do campo e a pobreza que se vivia naquela época,tudo contribuía para o mal estar familiar.
Então o meu pai quis afastar-se da aldeia onde morávamos e levar a família com ele divagando por esse país como nómadas de terra em terra a amolar tesouras e facas,sem rumo certo na vida para nenhum de nós.
A minha mãe não aceitou essa condição,e então aconteceu.
Depois de mais um acto de violência doméstica,o meu pai deixou-nos e foi embora por três anos,sem dar notícias.
Quando voltou ainda estávamos na mesma casa,graças a Deus não morremos de fome,porque havia sempre almas caridosas que ajudavam a minha mãe com alimentos e alguns arranjos de costura que ela ia fazendo,além do trabalho no campo que nunca faltou.
Recebia nessa altura 100 escudos mensais da misericórdia de Estremoz e assim vivemos com menos dificuldades durante esses anos.
O meu pai voltou uma noite e quando nós o vimos nem já o conhecíamos,mas o medo nunca foi esquecido.
Apesar disso ficámos contentes com o regresso dele.
Mas a minha mãe foi censurada pela família e por aquelas pessoas que repartiam com ela e deixaram de o fazer por ela receber o meu pai de volta e sujeitar-se a ser de novo maltratada.
Ela não se importou,era o marido dela e o pai dos filhos.Por isso o aceitou,mas não foi fácil enfrentar as críticas das irmãs e dos pais,nem das pessoas que conheciam a vida da minha mãe de perto.
Foi dramático quando voltei a ver o meu pai bater na minha mãe e ela ficar grávida de novo.Mesmo assim ele não evitava de lhe bater sempre que lhe dava vontade.
Mais um triste texto da minha vida atribulada,que eu não escolhi nem nunca me agradou conhecer.
Arlete Anjos
24/10/2016
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